Osteopata Beatriz Constantino

Refluxo gastroesofágico em bebés: o que é e como a Osteopatia Pediátrica pode ajudar?

O refluxo gastroesofágico (RGE) é uma das situações mais comuns nos primeiros meses de vida. Muitos pais chegam preocupados com “golfadas”, desconforto após as mamadas, choro frequente ou dificuldade em dormir, questionando se o bebé estará com algum problema mais sério.

Na maioria dos casos, o refluxo faz parte do desenvolvimento normal do bebé e tende a melhorar espontaneamente ao longo do primeiro ano de vida, à medida que o sistema digestivo e neuromuscular amadurece. Ainda assim, pode ser uma fase desafiante para toda a família.

O que é o refluxo gastroesofágico? 

O refluxo ocorre quando o conteúdo do estômago passa involuntariamente para o esófago, podendo ou não ser expelido (regurgitação).

Nos bebés isto é muito frequente porque:

  • o sistema digestivo ainda é imaturo;
  • o esfíncter esofágico inferior (a “válvula” entre o estômago e o esófago) ainda não funciona de forma totalmente eficiente;
  • passam muito tempo em posição horizontal.

Na maioria das situações trata-se de um fenómeno fisiológico e transitório.

Refluxo fisiológico: o que é considerado normal? É comum um bebé:

  • bolsar após as mamadas;
  • fazer pequenas golfadas;
  • arquear ligeiramente o corpo para trás;
  • engolir com frequência após comer;
  • mostrar algum desconforto pontual.

Desde que:

  • esteja a ganhar peso de forma adequada;
  • tenha um desenvolvimento global normal;
  • não apresente dificuldade respiratória;
  • esteja globalmente bem entre episódios;

Estamos, na maioria das vezes, perante um refluxo fisiológico.

O pico costuma acontecer entre os 2 e 4 meses, com melhoria progressiva até ao primeiro ano de vida.

Quando é que o refluxo merece mais atenção? Apesar de ser comum, há sinais que justificam avaliação médica mais cuidada:

  • recusa alimentar persistente;
  • dificuldade em ganhar peso;
  • choro intenso durante ou após as mamadas;
  • irritabilidade marcada após comer;
  • despertares frequentes por desconforto;
  • vómitos em grande quantidade;
  • tosse persistente ou pieira;
  • episódios frequentes de engasgamento.

Nestes casos, podemos estar perante uma Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) ou outros fatores associados que precisam de avaliação clínica.

Existe relação entre refluxo e tensão corporal?

Alguma literatura sugere que fatores mecânicos podem influenciar a sintomatologia do refluxo. Tensões na zona cervical, torácica ou diafragmática podem interferir na coordenação entre sucção, deglutição e respiração.

Também se observa, em alguns casos, associação entre torcicolo e maior incidência de sintomas gastroesofágicos, reforçando a importância de uma avaliação global do bebé.

Como pode a Osteopatia Pediátrica ajudar? 

A Osteopatia Pediátrica não trata o refluxo como uma doença isolada, mas sim como parte do desenvolvimento global do bebé.

O objetivo é melhorar a mobilidade e o equilíbrio das estruturas envolvidas na alimentação e na digestão.

A abordagem pode incluir:

  • avaliação global do bebé (crânio, coluna cervical, tórax e diafragma);
  • libertação suave de tensões miofasciais;
  • melhoria da mobilidade do diafragma, importante na digestão e respiração; ● apoio à regulação do sistema nervoso autónomo, que irá ajudar na autorregulação do bebé.

A evidência atual sugere que estas abordagens manuais suaves têm um papel complementar na redução do desconforto e na melhoria do bem-estar do lactente, sempre em articulação com o acompanhamento pediátrico, bem como, consultora de lactação IBCLC, terapeutas da fala ou nutricionistas com formação na área materno-infantil.

Pequenas estratégias que podem ajudar no dia a dia:

  • evitar volumes grandes de leite de uma só vez;
  • fazer pausas durante a mamada;
  • manter o bebé mais vertical após a alimentação;
  • evitar pressão abdominal (fraldas ou roupa apertada);
  • garantir um ambiente calmo durante as refeições.

Cada bebé reage de forma diferente, pelo que pode ser necessário ajustar estratégias.

Uma mensagem importante para os pais

O refluxo pode ser uma fase exigente, tanto física como emocionalmente. O choro, as noites mais difíceis e a sensação de impotência são experiências muito comuns.

Na maioria dos casos, trata-se de uma fase transitória que melhora com o crescimento e a maturação do bebé.

O mais importante é que os pais se sintam acompanhados, informados e tranquilos ao longo deste processo. Quando existem dúvidas ou sinais de alerta, procurar orientação profissional é sempre o melhor caminho.

Osteopata Beatriz Constantino

[C-0032588]

 

Referências bibliográficas 

  • Bercik MJ, et al. Relationship Between Torticollis and Gastroesophageal Reflux Disorder in Infants. Pediatr Phys Ther. 2019.
  • Curien-Chotard M, Jantchou P, Bellaiche M. Natural history of gastroesophageal reflux in infancy. BMC Pediatr. 2020;20:239.
  • Jacobson JC, Rosen R. A narrative review of gastroesophageal reflux in the pediatric patient. Transl Gastroenterol Hepatol. 2021;6:16.
  • Leung AKC, Hon KL. Gastroesophageal reflux in children: an updated review. Drugs Context. 2019;8:212591.
  • Martínez AL, López FM, Sánchez JG, et al. Explorando los límites de la fascia cervical profunda. SERAM. 2018.
  • Rosen R, et al. Pediatric gastroesophageal reflux clinical practice guidelines. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2018;66(3):516-554.

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